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Rascunho

O jornal de literatura do Brasil

#175

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Vidraça VIDRAÇA_175

Translato Novo olhar sobre a frágil autoridade do autor

A literatura na poltrona Clarice no inferno

Sujeito oculto Chove em Frankfurt

Quase-diário Coisas da política

Rodapé Anotações sobre romances (15)

Fora de seqüência Autor menor com recaídas de grandeza (2)

Dossiê Rumos Literatura Processos críticos

Dossiê Rumos Literatura Microensaios críticos

Dossiê Rumos Literatura Aventuras críticas

Manual de garimpo Doramundo

Ensaios e Resenhas O gênio modesto

Ensaios e Resenhas Em estado de bagunça transcendente

Inquérito Criação e aprendizado

Ensaios e Resenhas A linguagem e o jogo

Palavra por palavra Palavra evoca o drama e revela o texto

Ruído branco Minha única proposta para este milênio

dezembro 2013 / Ensaios e Resenhas / A herança humanizada de Apolo

A herança humanizada de Apolo

Geraldo Holanda Cavalcanti por Tiago Silva

Geraldo Holanda Cavalcanti por Tiago Silva

 

Com a revolução romântica no início do século 19, alguns escritores começaram a refletir criticamente sobre o próprio fenômeno poético e sua validade histórica. De início, de forma defensiva até, diante do ímpeto materialista da sociedade burguesa. Não por acaso o poeta inglês Percy Shelley escreveria a famosa Defesa da poesia, em 1821. Tratava-se, na origem, de uma resposta ao ensaio As quatro idades da poesia, de Thomas Peacock, por este ter considerado que a poesia não trazia nada de útil e racional ao mundo de então. Shelley dirá, por seu turno, que ela representava não só a expressão vital da imaginação, centrada na linguagem, mas também valeria como instrumento moral e civilizador, capaz de unir os homens.

Na França, Lamartine, nas Primeiras meditações poéticas (1820), destacaria o “dom do entusiasmo” do poeta; preocupar-se-ia também com Os destinos da poesia (1834), certo de que ela seria uma “língua completa e que não morrerá jamais”. Victor Hugo, outro gênio do romantismo francês, tratou de enaltecê-la e a figura civilizadora do vate (“deve conter em si a soma das idéias do seu tempo”) nos prefácios de vários livros, entre outros, Os raios e as sombras (1840) e As contemplações (1856).

Foi, porém, com Charles Baudelaire que a meditação sobre a lírica ganhou relevância verdadeiramente moderna. Tanto nos poemas quanto nos ensaios (O pintor da vida moderna), a questão da modernidade para Baudelaire resultaria da freqüentação da grande cidade (Paris), onde transcorreria o “espetáculo da vida elegante e das milhares de existências errantes que circulam nos subterrâneos”. Para ele, seria na grande cidade que o homem comum experimentaria “o heroísmo da vida moderna”. E, para o artista, residiria ali o desafio de representar a beleza do presente.

Com base na obra de Baudelaire, o filólogo alemão Hugo Friedrich, um século depois, escreveria um dos mais importantes estudos sobre a poesia pós-romântica: Estrutura da lírica moderna (publicado no Brasil em 1978). Considerando o escritor francês como precursor da modernidade lírica, destacaria uma série de traços na produção de vários outros grandes poetas europeus, a partir de 1920, não deixando de reconhecer em Rimbaud e Mallarmé mestres da lírica do nosso tempo. Um desses conceitos é o da tensão dissonante, que teria se tornado, segundo ele, um dos objetivos da arte moderna, ao lado do enigmatismo e da transcendência vazia.

Recentemente, o crítico italiano Alfonso Berardinelli ampliaria algumas das categorias negativas estudadas por Friedrich, identificando outros elementos da lírica pós-romântica, distantes da tensão dissonante de fundo urbano — como em Walt Whitman, por exemplo. Seu livro Da poesia à prosa (lançado, entre nós, em 2007) desponta como obra fundamental no entendimento da poesia moderna.

Também voltado para o tema, dois grandes livros do mexicano Octavio Paz se destacariam: O arco e a lira e Os filhos do barro (reeditados este ano no Brasil). Grande poeta e ensaísta de fôlego, Paz elabora apaixonada reflexão sobre o gênero, tanto sob o aspecto fundador quanto histórico, concentrando-se na permanência da poesia em luta contra a própria modernidade, tensionada entre a negação do passado e a colonização do futuro. Daí a “tradição da ruptura” como estratégia formal e força propulsora das vanguardas poética e artística que marcaram o século 20.

Deslealdade
Vale lembrar, em contrapartida, a obra do inglês Robert Graves, A deusa branca, em que busca resgatar os arquétipos mágico-religiosos da poesia, a fim de demonstrar sua energia intemporal. Toma como base dois poemas galenses do século 13, através dos quais tenta definir a função da poesia, que consistiria na invocação, no fundo, religiosa da Musa, a Deusa Branca. Não deixa o autor de advertir os poetas de hoje sobre a deslealdade para com ela, em razão da dependência material que muitos mantêm com o mundo comercial-industrial. Tal dependência, Graves a chamaria de “rabo da raposa”.

Noutro diapasão, mais propenso a discutir a natureza, suposições e funções da poesia moderna, posiciona-se o crítico Michael Hamburger com o longo e denso A verdade da poesia (escrito em 1968, mas só lançado no Brasil em 2007). Tal qual Friedrich, parte da poesia de Baudelaire a fim de analisar, num espectro bem mais cosmopolita (inclui alguns poemas de Drummond e Pessoa), “as tensões na poesia modernista”.

No Brasil, o estudo e a reflexão sobre o fenômeno poético ressurgem, agora, pelas mãos de Geraldo Holanda Cavalcanti, em A herança de Apolo. Também poeta (além de ensaísta, memorialista e contista), o autor nos oferece uma obra definitiva sobre o assunto. Nela, analisa, sob múltiplos aspectos, o fenômeno poético, a figura do poeta e a construção verbal do poema. Resultado de décadas de pesquisa, Cavalcanti colige um robusto inventário de opiniões e concepções de autores, tanto do Oriente quanto do Ocidente, bem como da antigüidade aos dias de hoje.

Trata-se, sem dúvida, de trabalho imprescindível aos leitores do gênero, aos professores de teoria literária e de oficinas de poesia e naturalmente aos próprios poetas, iniciantes ou não. Dividindo sua obra em três partes — Poesia, Poeta, Poema —, Geraldo Cavalcanti soube ampliar de forma superior o estudo em torno desses três pólos indissociáveis do acontecimento literário. Como afirma Eduardo Portella, em prefácio ao livro, o autor “mostra os vários cognomes do poeta, mostra, sobretudo, as variações viscerais dessa interminável peripécia, harmoniosamente distribuída entre a poesia, o poeta e o poema”.

Ao recorrer à vasta gama de poetas e pensadores, não deixa, porém, de expressar a própria visão do tema enfocado. Invariavelmente, sua mirada se volta para reforçar a linha crítica que atravessa toda a obra, conferindo-lhe unidade e sustentação — a desmitificação do poeta e da própria poesia. Em outras palavras, o autor busca humanizar Apolo e a prática da poesia, afastando a idéia (algo romântica) de que se trata de uma dádiva da natureza e/ou dos deuses, cercada de mistério e transcendência, só acessível a alguns eleitos, dotados de especial criatividade e comportamento social não raro fora dos padrões.

Consciente do caráter polimórfico da poesia, Cavalcanti trata de transcrever, logo na primeira página, a advertência de Alfonso Berardinelli, segundo a qual “definir a poesia, traçar-lhe as fronteiras, foi um dos empreendimentos mais apaixonantes e malogrados do pensamento estético”. Não sem razão, o autor afirma que cada poeta tem a sua própria concepção artística, isto é, uma compreensão particular do gênero, tão variável quanto a sua natureza e temperamento, não deixando de se circunscrever, por sua vez, aos vários momentos da cultura e da arte.

Tendo o cuidado de não confundir poema com poesia, o autor passa a citar diferentes concepções deste termo. Uma das primeiras e mais longas tentativas, nesse sentido, vem de Octavio Paz, em O arco e a lira, cuja frase inicial assevera: “La poesia es conicimiento, salvación, poder, abandono”, para em seguida sugerir, já em versos, que ela é: “encarnación/ del sol-sobre-las-piedras en un nombre”. Já para Ungaretti, a poesia representa uma “limpida meraviglia/ di um delirante fermento”. Para Hermann Broch, seria uma “fuga imóvel”; para Gide, uma “magia que consiste em despertar sensações”; enquanto, para Heidegger, “a instauração do ser pela palavra”.

Depois de discutir a sua natureza, invocando outros autores (Bachelard: “A poesia é uma metafísica instantânea”), passando por texto budista (“súbito momento de irreversível intuição”), Cavalcanti trata da relação da poesia com a beleza, bem como da sua passagem para o poema, enquanto realização verbal, para concluir com o crítico Antonio Carlos Secchin: “A poesia é um hóspede invisível; só percebemos que visitou, num frêmito, o corpo do texto quando já foi embora; o vestígio da sua passagem é o poema”.

Em seguida, o ensaísta passa a tratar das possíveis diferenças entre prosa e verso, assim como das múltiplas funções da poesia e da sua relação com a música, com as musas, com a metáfora, com a filosofia, com a religião e a ética, valendo-se de importantes poetas e pensadores, capazes de oferecer visões múltiplas, quando não complementares, sobre cada um desses fascinantes temas.

Lucidez e esperança
Não menos rica se mostra a segunda parte, voltada para o poeta. Aqui as considerações alcançam patamares surpreendentes. A figura do fazedor de versos é vista sob diversos ângulos, que no fundo refletem a própria condição humana e as circunstâncias históricas e sociais que lhe modulam comportamento, valores e atitudes.

Visto, nos primórdios, como ser divino, sacerdote, vate e profeta, vidente e visionário, possuído, mágico, por vezes louco com mania de grandeza, um criador; passando a ser, no romantismo, um sonhador, herói, predestinado, místico e sofredor, solitário e incompreendido; até chegar, no modernismo, a fingidor, entre outras tantas facetas, Geraldo Cavalcanti volta-se com especial empenho para aquela que decerto terá sido a mais polêmica e decisiva faceta para o poeta do século 20: ser (ou não) politicamente engajado (com a Revolução) e socialmente comprometido em denunciar as iniqüidades do sistema (capitalista) e de regimes totalitários. Trata-se de momento alto da obra, pois o autor, de forma lúcida e bem fundamentada, se dedica a mostrar, em quase cinqüenta páginas, os acertos e sobretudo os equívocos do comprometimento ideológico-partidário e seu reflexo na criação literária.

Impossível nestas poucas linhas dar conta do quadro complexo e não menos polêmico da questão. Geraldo Cavalcanti começa por relembrar Brecht, quando este, em 1939, às vésperas da Grande Guerra, afirmou: “Conversar sobre árvores é quase um crime/porque implica silenciar/a iniqüidade”. Não deixa de se referir, adiante, à conhecida frase de Adorno, ao término dessa mesma Guerra: depois de Auschwitz não é mais possível a poesia. Frase tão radical certamente teve o propósito de denunciar o horror que foram os campos de concentração nazistas e o holocausto.

O ensaísta cita também Carlos Drummond de Andrade, que, em 1948, “declina a responsabilidade/ na marcha do mundo capitalista”, prometendo ajudar a “destruí-lo”. Em seguida, critica, por outro lado, os “inocentes úteis”, que aprovaram “a violência contra a própria palavra, território por excelência do poeta”. Foi o caso de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que se negaram a condenar o Gulag, as perseguições a intelectuais e escritores, com aprisionamentos e internações forçadas de muitos deles em clínicas psiquiátricas na ex-União Soviética.

A propósito das relações problemáticas dos escritores com o regime comunista, Cavalcanti, que serviu em Moscou como diplomata nos anos de 1960, nos dá importante testemunho daquela hora, mas também reconta a trajetória trágica de um punhado de poetas brilhantes (Khliébnikov, Blok, Mandelstam, Iessiênin, Pasternak, Akhmátova, Tsvietáieva), sufocados pelo regime, nas décadas de 1920/30, com destaque para o caso de Maiakóvski, reexaminado em quinze candentes páginas. Não deixa o autor, porém, de se referir aos poetas comprometidos com guerras no século passado (Péguy, Apollinaire, Éluard), bem como aos que dela sofreram terríveis conseqüências (Celan e a “Todesfuge”).

Ao concluir a parte referente ao engajamento do poeta, o ensaísta pernambucano estabelece importante distinção entre poesia engajada e poesia social. A primeira teria por “musa a Revolução”, a qual, ressalta, “dificilmente produzirá grandes poemas, pois a musa revolucionária está preocupada com a mensagem e o efeito prático das palavras”. Já a poesia social expressaria “a responsabilidade do poeta diante das iniqüidades sociais, econômicas e políticas”, sem perda da dimensão estética da linguagem. Cita, nesse caso, alguns poetas brasileiros: Castro Alves, nos poemas anti-escravagistas; Drummond, com as obras Sentimento do mundo, José e A rosa do povo; João Cabral, com O rio e Morte e vida Severina, e Ferreira Gullar, com Dentro da noite veloz.

Nesta parte da obra, GHC aborda, ainda, a relação do poeta com o cotidiano, a velhice e a morte; discute também a situação dos bad poets, ou seja, os poetas de baixa tensão, lírico-amorosos, que constituem maioria em qualquer país. Por fim, relembra, em “O rei está nu”, as duras opiniões que alguns críticos (Gombrowicz, Caillois) e filósofos lançaram contra a pobre figura do poeta (Nietzsche: “Estou farto dos poetas, dos antigos e dos novos. Para mim, eles são todos superficiais”; Cioran: “O poeta é um pilantra que se esforça em buscar que dele se compadeçam, empenha-se em perplexidades e as procura por todos os meios. Depois a posteridade ingênua tem pena dele.”).

O capítulo dedicado à relação entre o poeta e a morte ganha, aqui, excepcional relevo quando o autor trata do suicídio. E o faz analisando, creio que pela primeira vez, a obra de duas poetisas suicidas, Ana Cristina César e Maria Ângela Alvim, depois de deter-se em alguns versos de Sylvia Plath, na esteira das pesquisas realizadas pelo professor James Kaufman. Para tanto, Cavalcanti comenta as várias passagens/imagens que de um modo ou de outro falam de morte na obra das brasileiras. Nas duas escritoras, conclui, a poesia “é, todo o tempo, a crônica de um suicídio anunciado”.

Por último, ao tratar do poema enquanto realização formal, Geraldo Cavalcanti não deixa de se ater a aspectos técnicos tradicionais (rima, verso livre, ritmo, musicalidade, etc.), mas também se dedica de modo especial aos problemas da tradução, invocando a opinião de vários escritores sobre seus limites e possibilidades. Cavalcanti adverte com acerto que “na poesia, a literalidade deve ser substituída pela imaginação criativa, vinculada ao sentimento de responsabilidade”.

Tratando dos temas preferenciais do poeta, destaca dois: o corpo da mulher amada e a lua. Quanto ao primeiro, relembra as descrições efetuadas por vários autores, que vão dos cabelos aos pés. Muitos poetas aqui comparecem, mas sente-se a ausência de Vinicius de Moraes, com o famoso poema Receita de mulher. Quanto ao segundo tema, remete ao estudo de Graves, A deusa branca, “dispensadora das fontes da vida e da morte, inspiradora e iniciadora”, desde a infância da humanidade, e finaliza ao citar a imagem dessacralizadora de Nicolas Guillén, que via a lua com “el rostro comido por un acné”.

Ao lado dos aspectos tradicionais do poema, Cavalcanti empreende notável estudo crítico a respeito da reinvenção da linguagem, iniciada com as vanguardas do início do século 20, como futurismo, dadaísmo, surrealismo, até chegar às experiências mais recentes e radicais, advertindo, porém, que toda invenção em arte há de ser “transitiva”, capaz de intensificar a percepção da realidade social e de se inserir “na corrente da literatura”. E indaga, lúcida e oportunamente (neste momento em que se fala tanto em “antipoesia” como valor que paradoxalmente a própria poesia teria de atingir): “Que grau de deformação pode um gênero literário suportar sem mudar de categoria?”.

Pergunta-chave, sem dúvida, quando a modernidade líqüida (Bauman) e a diluição dos gêneros e das formas parecem corresponder à velocidade atordoante da circulação e da reciclagem das coisas. O autor, porém, sustenta a esperança de que “enquanto houver literatura, haverá poesia”.

ADRIANO ESPÍNOLA

Nasceu em Fortaleza (CE), em 1952. É professor de literatura brasileira e autor de vários livros de poesia. Vive no Rio de Janeiro (RJ).

O autor Geraldo Holanda Cavalcanti Geraldo_Cavalcanti_cred Guilherme Gonçalves_1_164

Diplomata, poeta, ensaísta, memorialista e tradutor, nasceu no Recife (PE), em 1929. Serviu como embaixador no México, na Unesco e na União Européia. Sua Poesia reunida obteve o Prêmio Fernando Pessoa, da União Brasileira de Escritores (1998). Também é autor da ficção Encontro em Ouro Preto, O cântico dos cânticos e do romance de formação As desventuras da graça, entre outros. É membro da Academia Brasileira de Letras.

Obra de Geraldo Holanda Cavalcanti compila uma ampla e bem fundamentada reflexão sobre o fenômeno poético
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A herança de Apolo

Geraldo Holanda Cavalcanti
Civilização Brasileira
460 págs.

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