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Rascunho

O jornal de literatura do Brasil

#176

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HQ HQ_176

Fora de seqüência Autor menor com recaídas de grandeza (final)

Ensaios e Resenhas A captura de um mundo em transformação

Ensaios e Resenhas A ironia da liberdade

Inquérito A escrita como guia

Ensaios e Resenhas Uma esponja de cactos

Rodapé Anotações sobre romances (16)

Ensaios e Resenhas O legado moderado de um polemista

Ensaios e Resenhas Sob os dilemas, sem guarda-chuva

Ruído branco Quem se interessa pelo leitor?

Ensaios e Resenhas Um pulo do armário

A literatura na poltrona Bioy Casares e o leitor

Quase-diário Nobel, evangelhos e guilhotina

Ensaios e Resenhas Tomando umas com Jesus

Ensaios e Resenhas Sexo, perversões e solidão urbana

Ensaios e Resenhas Melancolia em trânsito

Translato Como absorver todo o prestígio do original

Sujeito oculto Duas avós

agosto 2011 / Ruído branco / A menina-anjo e os livros: uma fábula

A menina-anjo e os livros: uma fábula

Ela realmente não gosta de falar. Ou desaprendeu. Ou não pode: é muda. Será que ela é muda? Um animalzinho fisicamente incapaz de articular vogais e consoantes? Ela realmente não gosta de ler. Ou também desaprendeu. Ou nunca aprendeu: é analfabeta. Uma criaturinha psicologicamente incapaz de memorizar letras, palavras e frases escritas.

A biblioteca da casa está toda desarrumada. Vandalismo? A menina atacou as estantes e espalhou no chão tudo o que encontrou.

Espalhar é o que a menina mais gosta de fazer numa biblioteca. Ela ajeita os fones de ouvido, seleciona um ponto qualquer na playlist, acondiciona o iPod no bolso da bermuda e manda bala. Não fica pedra sobre pedra.

Seus livros prediletos são os grandes e ilustrados. Ela é capaz de passar um tempão admirando uma imagem do corpo humano meticulosamente desenhada. Os atlas também costumam prender sua atenção. O que será que ela tanto procura seguindo com o indicador fino a linha dos rios e das cordilheiras? Um esconderijo?

Desconfio que essa menina procura um país muito distante, um país secreto em que a palavra escrita não diz quase nada. Sua terra natal. É isso o que ela busca sempre que entra numa biblioteca. É nisso que ela acredita: num país-esconderijo cuja localização está — sempre esteve — oculta num atlas qualquer.

Talvez seus conterrâneos, lá nesse insondável país distante e analfabeto, até gostem de falar, discutir, contar histórias, fazer longos discursos, refletir e debater em voz alta. Porém a menina realmente não gosta. Ou desaprendeu. Ou não pode: é muda.

Ou está guardando sua preciosa fala — fico imaginando quantas digressões mágicas ela não fará no momento certo — para quando voltar pra casa. Como as donzelas que guardam sua virgindade para o encontro perfeito.

(Analfabeta? Será mesmo? Ou será só encenação?) A menina ama os origamis e as miniaturas: coisas, pessoas e bichos de plástico. Ela também ama os livros. (Será mesmo?)

É verdade que sua relação com os filmes e os desenhos animados é fria e distante. Ela não tem muita paciência para as imagens em movimento. Logo cai no sono. Também não gosta dos games. Não tem com quem jogar. Acha chato. Em pouco tempo o joystick está abandonado numa poltrona. Internet nem pensar.

Essa menina ainda não sabe, mas ela não é deste planeta.

Alienígena.

Igual a todas as crianças: estrangeiras. Verdade ou delírio? Crianças não são deste planeta?

São de outro lugar muito distante, talvez de outra galáxia. Sua cultura é muito diferente. O idioma também é outro.

Elas são trazidas pra cá por mero acaso. Rebanhos gigantescos de crianças ficam gravitando por aí, no universo. De repente, um desses pequenos portais galácticos soltos no espaço acaba sugando um punhadinho de meninos e meninas e soltando aqui. O portal de saída é a vagina da mãe.

Com o tempo elas vão mudando. Crescem. O veneno da atmosfera humana transforma sua mente. Elas esquecem.

Das estrelas! É por isso que a menina que não fala nem lê também gosta de mapas astronômicos e cartas celestes. Ela adora acompanhar com o dedo o desenho das constelações.

Ela não sabe, mas é só mais um anjo que caiu na Terra. Um serzinho celeste que se adaptou mal à nova vida: não respirou em excesso o nosso ar nem tomou muita água. Da comida daqui comeu pouco, por isso ficou assim: malformada, metade menina metade anjo.

Ela gosta demais dos grandes livros cheios de fotos e diagramas do céu. Ela também gosta demais do céu. Está sempre admirando as estrelas. Às vezes até parece que a menina-anjo está esperando visita. Ela olha tanto o céu que isso chega a ser preocupante. Parece que alguém muito esperado está pra chegar.

O céu e os mapas: no mínimo assunto de viajantes, não?

Quando não está esperando visita a menina-anjo gosta de brincar no jardim, mordiscar um espinho de cacto (adstringente) ou um talo de grama (azedo), lamber uma pétala de rosa (amargo), chupar uma pedrinha (agridoce) ou um torrão (doce). Todos os sabores do jardim enfeitiçam de um jeito muito especial.

Mas gostoso mesmo é ver essa criatura celeste convivendo com os livros. Ela faz pilhas com eles: brochuras de um lado, capas duras do outro. Torres muito altas brotam do chão da biblioteca. Depois um grande templo pagão em forma de púbis cercado por quatro templos menores para os sacrifícios humanos.

Pirâmides astecas. Palácios chineses. Animaizinhos de origami e homenzinhos de plástico passeiam por eles. Protegendo essas construções magníficas, uma poderosa muralha medieval desenhando uma silhueta humana.

Surge então em miniatura a capital formidável daquele país secreto em que a palavra escrita não diz quase nada. Por isso essa tristeza com cheiro de tinta e mofo formigando em toda a biblioteca. É saudade.

Banzo.

A menina-anjo brinca de voltar pra casa.

Primeiro ela voa até o portão da muralha de livros, vigiado dia e noite por guardas-minotauros de armadura. A lança sempre em punho, eles a saúdam respeitosamente. A menina-anjo atravessa o portão. Ela é a rainha-santa da cidade antiga em que a palavra escrita não diz quase nada.

Seus súditos a rodeiam. A alegria retorna à capital desse insondável país distante e analfabeto. Nossa rainha-santa voltou, gritam os sacerdotes. Os senadores, os cavaleiros e o povo respondem com um urro longo.

O fedor de tinta e mofo é expulso da atmosfera pelo cheiro de pólvora queimada dos fogos de artifício.

A menina sagrada é bastante complacente: alegria e festa, as dívidas são perdoadas e os condenados à prisão perpétua são poupados da sessão diária de chibatadas. Mas há algo muito estranho nesta cidade, neste país que ela mesma construiu. Algo muito errado. Seus habitantes são imaginários.

A parede interna das torres, dos templos, das pirâmides e dos palácios é de papel impresso. As cortinas e as tapeçarias são fotos e ilustrações de enciclopédias. Longos textos em português, inglês, espanhol e francês decoram o piso suntuoso dos salões. As avenidas e as ruas são forradas de verbetes de dicionário.

Tudo artifício. Tudo representação inútil. Agora a menina-anjo percebe que este não é seu verdadeiro lar. Agora ela sabe: as estrelas, foi de lá que ela veio.

A grande vagina a aguarda no templo central em forma de púbis. Mecanismo delicadíssimo, o sumo sacerdote o preparou para a viagem de volta. Mas a menina-anjo cresceu muito e não cabe mais no canal vaginal. Desespero. Não dá mais pra atravessar o portal de carne.

Presa na Terra. Pra sempre.

Raiva. Extrema decepção. A vergonha pelo fracasso faz os sacerdotes cometerem suicídio. Alguém sugere incendiar toda a cidade como penitência. Então a menina-santa ouve a voz distante. Um zumbido. Um breve comunicado saindo da vagina sagrada. Estamos a caminho, diz a voz longínqua, tenha paciência, já estamos a caminho.

Se a menina-anjo não pode ir até eles — reencontrar seu povo analfabeto —, eles virão até ela. Das estrelas. Eles virão resgatá-la.

Agora ela sabe a verdade.

E quer voltar.

Para as estrelas, de onde ela veio. Para o rebanho perdido de crianças gravitando nos confins do universo.

Os mapas da Terra já não interessam mais. Agora a menina-anjo só tem olhos para as cartas celestes. Descobrir a verdade costuma provocar milagres. Não será nada espantoso se de repente essa criatura tão calada começar a tagarelar.

LUIZ BRAS

É escritor. Autor de Sozinho no deserto extremoParaíso líquido, entre outros.

Quando descobrir a verdade costuma provocar milagres
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