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Rascunho

O jornal de literatura do Brasil

#175

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Vidraça VIDRAÇA_175

Translato Novo olhar sobre a frágil autoridade do autor

A literatura na poltrona Clarice no inferno

Sujeito oculto Chove em Frankfurt

Quase-diário Coisas da política

Rodapé Anotações sobre romances (15)

Fora de seqüência Autor menor com recaídas de grandeza (2)

Dossiê Rumos Literatura Processos críticos

Dossiê Rumos Literatura Microensaios críticos

Dossiê Rumos Literatura Aventuras críticas

Manual de garimpo Doramundo

Ensaios e Resenhas O gênio modesto

Ensaios e Resenhas Em estado de bagunça transcendente

Inquérito Criação e aprendizado

Ensaios e Resenhas A linguagem e o jogo

Palavra por palavra Palavra evoca o drama e revela o texto

Ruído branco Minha única proposta para este milênio

dezembro 2011 / Dom Casmurro / A palavra perdida

A palavra perdida

Conto de Mário Araújo

 

 

Ilustração: Theo Szczepanski

Juarez disse que amanhã, quando o chefão chegar, vai acabar com essa… Foi então que Juarez usou a palavra, a palavra de que Álvaro não se recordava. Por mais esforço que fizesse, a palavra não vinha, e Álvaro decidiu chamá-la provisoriamente de balbúrdia. O chefe chegaria de viagem para pôr fim àquela balbúrdia, murmurou para si mesmo, esperando que logo aparecesse a palavra verdadeira. Esta era muito pior, sem dúvida, e por isso o ofendera tanto. Qualificar daquela forma o trabalho que ele desenvolvia com tamanho zelo. Um absurdo!

Precisava da palavra para contar à mulher, no sofá. A mulher tinha um olhar compreensivo, mas não o bastante, pois a palavra não era a correta. Encheu-se de expectativas para o jantar: talvez de estômago cheio, ou mesmo enquanto mastigasse, com o movimento dos músculos faciais a palavra escorregaria do esconderijo em sua cabeça para a boca, e daí para fora.

Na hora em que a ouviu, na sala do subchefe, não quis retrucar. Preferiu engolir a raiva devido à presença de Clóvis, colega dado a salpicar de cascas de banana o chão alheio; se protestasse, o colega teria munição para atacá-lo em mexericos de corredor. Assim, Álvaro saiu da sala com a palavra ultrajante debaixo da língua, como se a estivesse guardando para mastigar ao longo do dia. Prometia a si mesmo retornar mais tarde para, a sós com Juarez, reivindicar um tratamento mais respeitoso. Ao chegar à sua mesa, porém, a palavra havia sumido, como um veneno que tivesse se dissolvido na sua saliva; a palavra se esquivava de ser pronunciada e, portanto, esconjurada.

Depois de um jantar em branco, com um amigo ao telefone recorreu novamente a balbúrdia, dessa vez acompanhada de sinônimos, como bagunça e baderna, mas nenhum deles servia. A conversa versou também sobre outros assuntos, nos quais Álvaro não conseguiu se concentrar. Debaixo do chuveiro, refrescou-se pensando na reparação que exigiria do subchefe, no conjunto de qualidades que possuía e que tornavam injustificado o uso da palavra terrível. Mas para isso era fundamental lembrar-se dela. Dela. Não podia aceitar refugiar-se em paráfrases, diluir sua revolta em metáforas. Tinha que ser claro e objetivo. Poderia até mesmo fechar a conversa com o pedido de demissão que há muito acalentava.

O encontro do corpo com a toalha limpa e macia, porém, neutralizou a aspereza dos pensamentos de Álvaro. Já de pijama, reconsiderou o pedido de demissão e, enquanto ajeitava o travesseiro, a exigência de uma retratação pareceu-lhe ridícula. A mulher respirava em paz, o rosto voltado para o outro lado, as costas serenas. Com a luz apagada, entregou-se à prece que antecedia o sono de todas as noites, ao mesmo tempo em que procurava pelos quatro cantos da mente a palavra perdida. Concluiu que esta se extraviara de propósito para protegê-lo de uma atitude tresloucada, e em meio à oração logo surgiram expressões de agradecimento pelo extravio. Enfim, deu a palavra por definitivamente desaparecida e, sentindo-se a salvo da própria imprudência, adormeceu.

MÁRIO ARAÚJO

Nasceu em Curitiba (PR), em 1963. É autor dos livros de contos A hora extrema e Restos. Vive em Brasília (DF).  

Encheu-se de expectativas para o jantar: talvez de estômago cheio, ou mesmo enquanto mastigasse, com o movimento dos músculos faciais a palavra escorregaria do esconderijo em sua cabeça para a boca, e daí para fora.
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