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Rascunho

O jornal de literatura do Brasil

#145

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Paiol Literário Ricardo Lísias

Ensaios e Resenhas O literato da memória

Ensaios e Resenhas A ferida do exílio

Ensaios e Resenhas Variações do acaso

Dom Casmurro O amor acontece

Dom Casmurro Broadway Boogie-Woogie

Ensaios e Resenhas Os espectros do gigante

Ensaios e Resenhas Universalismo sertanejo

Ensaios e Resenhas Lúdico e mágico

Ensaios e Resenhas Leitura do mundo

Ensaios e Resenhas As noites dentro da noite

Ensaios e Resenhas Ao lado de Pessoa

Inquérito Método de trabalho

Ruído branco Top 15: os novos clássicos da cultura

A literatura na poltrona Política e poesia

Intercâmbios ficcionais A volta dos que foram

Translato As marcas distintivas de toda tradução

fevereiro 2012 / Quase-diário / Literatura e televisão (na França)

Literatura e televisão (na França)

Affonso Romano relembra os bons momentos do programa de entrevistas francês Apostrophe

Bernard Pivot recebe Alexandre Soljenitsyne no Apostrophe

18.01.2012
Nos dois anos em que dei aulas em Aix-en-Provence, via semanalmente o notável programa Apostrophe; Bernard Pivot entrevistava escritores. O programa tinha uma audiência imensa. As livrarias da França expunham nas vitrinas e mesas os livros citados no programa. Pivot, durante 30 anos, foi um invejável fenômeno de comunicação. Leio agora no Le Nouvel Observateur que três programas dedicados a livros na televisão francesa deixarão de existir. Permanecerá apenas La Grande Librairie, de François Busnel. A reportagem se refere a Pivot como uma lenda. Abro algumas anotações feitas há 30 anos.

03.03.1981
Na TV-2, programa Apostrophe de Bernard Pivot. Entrevista uma jovem autora que escreveu Paul Nizan, communiste impossible. Vem à tona o problema da relação intelectual dentro do “partido”. Confirma-se tudo o que eu pressentia na adolescência e não ouvia ninguém dizer: o “partido” é uma “igreja”.

Nizan largou o “partido” desiludido com a Rússia, que fez um acordo com os nazistas (década de 30). Os comunas, então, passaram a execrar Paul Nizan, a chamá-lo de tudo. Só muito recentemente se pôde ver isto claramente.

Também no programa, depoimento de Olivier Todd — Un fils rebelle. Ele diz algumas coisas sobre Sartre, coisas que eu e Marina já havíamos conversado quando publicamos no JB uma longa entrevista de Simone e Sartre comentada por nós dois.

Percebe-se que Simone era mais séria, ele às vezes opinava sobre livros que não lera. De minha parte, lendo a trajetória dele, resumida no Nouvel Obs, vi certa ligeireza nas suas tomadas de posição.

30.04.1982
Acabo de ver outro Apostrophe: René Girard (Le bouc émissaire), Evtushenko (Les baies sauvages de Sibérie), e um chato inglês David Lockie (L’amour d’une reine). Pivot fez perguntas duras a Evtushenko: sobre a Sibéria, por exemplo. E ele contra-atacou dizendo que não era inspetor de prisões para responder. Sobre Stálin: disse ser anti-stalinista, mas não aceitou compará-lo a Hitler. Atacou também a malícia de Pivot, que se saiu bem, dizendo que tal malícia era francesa.

Evtushenko dá uma impressão sólida. Tem lá conflitos com seu país, mas saiu-se bem. Fez sobretudo uma fala antinuclear.

René Girard é interessante, mas esse cristianismo dele é de matar. Sua teoria sempre voltando à mitologia e à Bíblia me parece um belo exercício ficcional. O ensaísta neste sentido é semelhante ao romancista: criar metáforas que dêem conta da interpretativa do real.

02.05.1982
Acabo de ouvir no Apostrophe uma das mais incríveis histórias jamais imaginadas. Mas real. Vou comprar o livro Elissa Rhais, de Paul Tabet. Ela foi uma escritora famosa entre 1918 e 1939. Um rico comerciante no Marrocos vende sua filha de origem judia para um harém onde as mulheres não têm nada a fazer senão engordar. Seu nome: Leila Bou Mendil. Quando ela chega à adolescência, seu senhor resolve que ela vai ter que se apaixonar por ele. Durante meses tenta tudo. A jovem se deixa possuir, mas não demonstra o menor sentimento. O senhor então ordena que ela fique enclausurada para sempre. Um dia, o senhor morre. E ela, liberta, recebe uma herança de família. A situação se inverte: ela agora conhece um garoto de uns 15 anos a quem toma como amante e a quem decide contar algumas estórias do harém. O garoto resolve escrever a história. Ela conta outra. Ele a escreve. Ela, que era analfabeta, faz chegar os originais a um editor, mas com o seu nome. E assim, durante dezenas de anos ela mantém o rapaz anônimo e freqüenta a vida social-literária de Paris, onde é requisitadíssima. Porém, no dia em que vai receber a Légion d’honneur, leva consigo o garoto e o escândalo aparece. Passado o terremoto, daí a poucos anos ela morre. O rapaz, de nome Raul, casa-se, constitui família. E nunca contou à sua própria família essa história vivida. Ele tem um filho a quem conta a história de ter sido aprisionado pela mulher, que assim se vingava dos homens. Mais: pressente que se ele deixar o pai sozinho, o pai se matará. Resultado: cansado de uma vigília, o rapaz deixa o pai a sós. Daí a duas horas o pai se mata. Passam-se 15 anos e o rapaz, enfim, escreve esse livro.

No programa também Roger Vadim (L’ange affamé), Vittorio Gassman (Un grand avenir derrière moi) e Roger Gouse, cunhado de Mitterand, amigo de Bernanos, com quem conviveu no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial (Le mirroir portable).

Incrível o programa. O sarcasmo e a ironia de Gassman dizendo que virou ator no enterro do pai, quando sentiu a situação do ator que se observa; que não chorou, e que após o enterro fechou-se no quarto e quebrantou-se em lágrimas. Debochado, diz que ama mulheres, dinheiro e representar inclusive filmes ruins tanto quanto os sublimes.

Vadim fazendo um discurso sobre a necessidade de manter a curiosidade fora da profissão, manter a juventude mais que a carreira.

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

É poeta, cronista e ensaísta. Autor de Que país é este?, entre outros. Vive no Rio de Janeiro (RJ).

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