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Rascunho

O jornal de literatura do Brasil

#145

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Paiol Literário Ricardo Lísias

Ensaios e Resenhas O literato da memória

Ensaios e Resenhas A ferida do exílio

Ensaios e Resenhas Variações do acaso

Dom Casmurro O amor acontece

Dom Casmurro Broadway Boogie-Woogie

Ensaios e Resenhas Os espectros do gigante

Ensaios e Resenhas Universalismo sertanejo

Ensaios e Resenhas Lúdico e mágico

Ensaios e Resenhas Leitura do mundo

Ensaios e Resenhas As noites dentro da noite

Ensaios e Resenhas Ao lado de Pessoa

Inquérito Método de trabalho

Ruído branco Top 15: os novos clássicos da cultura

A literatura na poltrona Política e poesia

Intercâmbios ficcionais A volta dos que foram

Translato As marcas distintivas de toda tradução

setembro 2011 / Rodapé / O erotismo na poesia de Ana Peluso (1)

O erotismo na poesia de Ana Peluso (1)

A paulistana Ana Peluso mantém um blog e, até onde sei, tem dois livros de poemas inéditos. Um dos pontos altos de sua poesia é o erotismo, os apelos da carne. A voz feminina de muitos de seus poemas, no livro Guelras nos ares, abre-se para o prazer, fala, sem interditos, de instantes intensos dos corpos ou de fantasias veementes. Assim, a condição de “devassa” no momento do ato sexual opõe-se — e rima — ao mal-estar/desprazer da “ressaca”, do retorno à ordem cotidiana. O eu lírico, ansioso pela cópula, e cogitando a solidão, se insurge contra o parceiro que lhe tenta escapar: “vê se pára com essa/ frescura/ de sair por aí/ como se fosse só”. A linguagem despojada, o uso permanente do verso livre e branco (só raramente o emprego de rimas toantes), o aproveitamento hábil do enjambement (note-se, na estrofe acima, o rico efeito do corte em “vê se pára com essa/ frescura”, em que o substantivo “frescura”, solto e isolado num único verso, ganha força, fixa a irritação do eu que fala) são características importantes da poesia de Peluso. O eu feminino de seus poemas ofega por felicidade, experimentada ou divisada na junção dos corpos. A ânsia de felicidade, entretanto, pode promover o desgosto, o abatimento: “diamante espatifou o chão/ no dia em que eu chorei”. Veja-se a instigante metáfora, a transferência do sentido de “lágrima” para “diamante”. Daí ficar abatida a “fera” que, sentindo “a infinita falta/ do ar de outra fera”, e afiados os “dentes”, tem apenas “seca sua baba”. Aqui, portanto, o desejo e a ausência do objeto desejado. A grande falta, o desencontro — numa palavra, a solidão.

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO

RINALDO DE FERNANDES

É escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Paraíba. Vive em João Pessoa (PB).

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